Chico da Silva por Garcia

Jose Garcia dos Santos, José Claudio Nogueira (o Claudionor) e Sebastião Lima da Silva (o Babá). Discípulos diretos de Chico da Silva, passaram ainda na infância a frequentar a oficina do mestre, no Pirambu. Aprenderam com ele segredos da pintura e se transformaram em seus ajudantes, tornando-se parte de um dos muitos capítulos da história da vida e da obra do artista. Os pintores que produziram muitas das obras de forma compartilhada com Chico da Silva falam sobre a expectativa quanto à possibilidade de um novo espaço dedicado ao autor em Fortaleza. Relembram histórias da juventude ao lado do mestre, recordam ensinamentos e dificuldades, abordam bons e maus momentos, lamentam injustiças que julgam ter sofrido, exaltam passagens de felicidade e entusiasmo. Acima de tudo, dão sua versão da história, dividindo um pouco do muito que têm para contar sobre o pintor que se fez mito. Confira:

Quais as lembranças dos primeiros momentos com Chico da Silva? Como é que vocês foram recebidos por ele no início?

Babá - Eu era criança ainda, de 12 para 13 anos, quando comecei a andar na casa dele, curioso, olhando ele pintando. E me encostei por lá, até o dia que ele deu a chance de mandar que eu começasse a pintar, fazer os enchimentos, ele fazendo o desenho e eu aplicando as cores de tinta. Mas sempre ele corrigindo alguma coisa que no começo eu errava, e ele ajeitava. Toda vida ele teve esse lado bom dele, de receber a gente. Não tinha receio de nada, sempre procurava ajudar as pessoas. E as crianças que ele achava que estava interessado em aprender, ele ajudava.

Garcia - Eu tinha uns 12 anos na época que conheci o Chico e comecei a andar por lá. Comecei devagar, com ele dando até a tonalidade de cor, tudo foi ele que veio ensinar, como é que devia pegar o pincel, aquela forma de colocação do dedo mindinho, dando mais condição de você fazer linha reta, usando a mão como um compasso. Tudo aquilo ele gostava de ensinar, eram os princípios de alguma coisa. Até pra gente levar o pincel onde estava o coador, não colocar tinta demais, pra não escorrer, ter a mão leve... Tudo isso foi ensinamento que ele deu, pra gente começar a fazer alguma coisa devagar. Eu por mim trabalho com muito colorido, outros fazem mais opaco. Esse colorido era uma marca muito forte dele, e chamou muito a atenção da gente, que era criança, aquilo despertava curiosidade

Claudionor - Eu era o desenhista da escola. Conheci o Chico antes, porque eu tinha uma casa numa rua que não era pavimentada, naquele tempo não existia isso no Pirambu. E o Chico parava pra ver meus desenhos na calçada, eu desenhava Durango Kid, personagens de quadrinhos... Tinha nove anos. E o Chico parava e ficava embasbacado, porque eu desenhava com perfeição. Daí ele me pediu pra desenhar senhor dos pássaros, sereia. Inclusive peguei o Dragão da lata de querosene Jacaré transformei num Dragão. Devido a ser o desenhista da escola, eu era muito solicitado pra viajar, fui quem mais viajou com o Chico, porque era livre. Ele me chamava de Jean-Claude, ou de pantera-leão. Ele dizia que eu era o parceiro brabo, metido a valente.

Sempre houve muita controvérsia em torno da produção coletiva dos quadros do Chico da Silva, primeiro em torno da escola, do ateliê depois com muito mais gente produzindo. Pra vocês, como era criar, pintar junto com ele?

Claudionor - O Chico era maravilhoso. E gênio como ele era, ele criava as coisas e tudo que eu o Babá, o Ivan, ou o Gilberto fazia, ele mudava o desenho, botava o dedo dele, fazia os detalhes, os cabelinhos, essas coisas. Dava o toque Chico da Silva. Por ser o gênio que ele era, o quadro era autêntico, porque ele sempre dava o toque dele. Por desenhar e pintar, ele tinha confiança em sair, viajar comigo. Os painéis do Mercantil São José, que quando foi inaugurar queria uma coisa de impacto pra ser o melhor de Fortaleza, o Chico me chamou e eu fui fazer com a minha esposa, dona Fátima. Fiz com ela durante 12 dias e 12 noites, ininterruptamente, produzindo acho 12 painéis enormes, de 3,75 por 1,25. Não sei onde foram parar, podem estar até na Europa. Mas produzi com a orientação dele. Quando terminamos, deram ao Chico da Silva um Fusca 1500, o Fuscão. Eu peguei e botei: ‘Gentileza dos Supermercados São José; ao artista Chico da Silva’ e desenhei uma briga de galo no capô do carro

Garcia - Ele foi ensinando, a gente abrindo o desenho, ele foi vendo que tava desenvolvendo. Tinha vez que a gente fazia quase o quadro todo. Mas sempre o acabamento era com ele. Depois é que foi começando a desenvolver a escola, cada um tendo liberdade de trabalhar, escolher o tema, os desenhos que fazia, aquela coisa toda. E ele também aprovando, aqui , acolá dava alguma opinião. Mas ele deu muita oportunidade, pra gente também não cair só naquela coisa, só nele, também ajudou muito a gente a descobrir o próprio caminho, a ter nossa própria criatividade. Tanto que depois ele foi vendo que tinha diferença, um quadro dele, um do Babá, um do Claudionor... Agora, essa polêmica toda, o que acontecia realmente era o seguinte: a mão do Chico como pintor estava em nós. O quadro que ia sair dali, da minha mão, da mão do Claudionor, do Babá, do Ivan, que já; faleceu, era autêntico, porque era a nossa mão que estava fazendo, mas com a aprovação toda dele. Ninguém estava falsificando quadro do Chico, se ele estava dando toda a orientação e assinando como dele. Falsificar é quando você copia um quadro e assina sem a pessoa nem saber. Mas nós ali, tudo na volta do Chico? Ele considerava a gente a mão dele.

Babá - A gente parou de pintar esses quadros antes do Chico morrer. Em uma certa fase, que a gente viu muita coisa malfeita, a gente parou, eu larguei de pintar. O Claudionor ainda continuou um período, mesmo na fase negra, mas pra nós foi uma fase negra pro Chico, porque a gente trabalhou com o Chico na fase de ouro. Depois surgiram pessoas que conservavam o Chico sempre fora do ateliê, sempre dando dinheiro na mão dele pra que ele se afastasse da gente e tomassem conta dele, tudo que ele fazia vendia na casa mesmo dele, onde era o ateliê, esse pessoal foi que desmoralizou e defasou o nome do artista por um tempo. E agora a gente tá correndo atrás de valorizar.

Vocês se sentiram injustiçados?

Claudionor - Com certeza. Eu fui marginalizado. As pessoas se preocupavam, se a gente aparecesse perturbava muita gente. Mas eu nunca tive intenção de ofuscar ninguém, apenas que reconheçam meu trabalho, que é diferente. E nessa fase que o Babá e o Garcia pararam (de pintar), foram trabalhar com outras coisas, eu não parei. Se eu parasse, a bicicleta caía. E eu não era só desenhista do Chico. Trabalhava com decoração, no Náutico, em outras cidades, em carnaval, São João... Só que eu sou marginalizado. Por ser o Claudionor, que trabalhou com o Chico, tem gente que acha que eu não tenho espaço. Eu espero que a gente tenha o espaço devido e mostre a essas pessoas que nós não somos marginais. Somos artistas, capazes de fazer coisas lindas. Naquela época, a pessoa não comprava quadro do Chico, comprava do Babá, do Claudionor, do Garcia, claro, assinado pelo mestre, que nos amava. E hoje a pessoa sente o medo da gente aparecer em público, quando deveria valorizar. Rafael, Michelangelo, todos esses artistas foram discípulo de alguém, que obscureceu, e eles ficaram

Babá - Nessa fase negra da vida do Chico, nós nos afastamos justamente pra não fazer parte da fase negra da vida dele. Naquela fase que o trabalho dele era feito de uma forma que até representa bem aquela fase da vida dele, que a maioria o fundo do quadro é preto, é negro. Nós, os discípulos, a gente sempre seguiu, desde o início, as verdadeiras obras do Chico. A gente nunca deixou a origem, com a dedicação, o carinho que ele sabia, que passou pra gente. A gente até hoje preserva o que era original de ensinamento do Chico.

Garcia - É como eu disse, falsificar é você fazer uma obra sem nem a pessoa saber. A gente não, era tudo ali junto com o Chico. Agora, quando começou a sair, não de dentro da escola, mas muito por fora, porque o povo achava fácil copiar, fazia as figuras muito tronchas, faziam aquelas figuras sem sentido, sem nada, briga de galo que ninguém sabia nem o que era aquilo ali, não tinha o traço característico. Aí o pessoal começou a fazer, assinar, vender na Beira-mar como se fosse cinco, dez reais nos dias de hoje, aí sim foi uma falsificação. Porque o Chico não sabia quem tinha feito, só aparecia na Beira-mar quadro com o nome dele. Mas a gente, que trabalhava sob a tutela dele, não fazia isso. Eu achava que as pessoas que na época estavam fazendo não tinham talento. O artista é quem tem talento. Tanto que hoje continua quem? Eu, Claudionor, Babá porque tinha talento pra criar, dentro do esquema do Chico, e continuar trabalhando. Quem copia só espera o artista criar pra poder imitar.

Segundo o Gilberto Brito, no auge desse comércio chegaram a ser produzidos cerca de mil quadros por mês, nas oficinas do Pirambu. No caso do Chico e de vocês, que viviam mais próximos na oficina, o que foi feito do dinheiro de todo esse trabalho? Como é que ele lidava com essa parte prática?

Garcia - Com relação ao Chico, a gente trabalhava e era obrigado a sair com ele, ultimamente, para fazer as entregas dos quadros. Tinha que ir com ele pelas circunstâncias de receber. Quem não ia receber na hora ficava sem nada, porque no outro dia, ele não tinha mais dinheiro. Eu moro no Jardim Guanabara, e cansei de chegar lá sete, oito da manhã, e ele cutucar na barriga da gente e dizer: Me dê aí o dinheiro para comprar o pão. A gente perguntava cadê o dinheiro da venda da noite, e ele ficava lá. O dinheiro que a gente fez alguma coisa na vida foi justamente quando a gente começou a trabalhar diretamente para os marchands, que pagavam a gente, adquiriam tudo, aí chamavam o Chico, pagavam o Chico, o Chico só fazia assinar os quadros. A nossa parte ele pagava. Então esse dinheiro é que a gente tinha alguma coisa na vida. Mas era pouquinho, não era muito não. Tanto que depois eu fui trabalhar em fábricas de bolsas e calçados, em açougue de supermercado. Só voltei a pintar acho que de 2000 para cá.

Babá - Eu cheguei a abrir uma pequena indústria de calçados. Agora, pro Chico, o dinheiro não tinha nenhuma importância. Nós temos uma frase que fica bem pro Chico. “O Chico é um pintor primitivo”. Não. Ele é um primitivo que pintava. Não tinha controle de dinheiro. Dinheiro era só o daquele momento, pra o que ele quisesse fazer naquele momento, naquela hora. Não tinha essa de guardar. Era estourar mesmo, gastar o que tivesse no bolso à tarde e à noite, não importa quanto fosse não. E tinha o seguinte: ele pagava os trabalhos da gente, o nosso dinheiro estava guardado, e a gente era convidado pra ajudar a gastar o dinheiro dele, pra gastar com bebida, com o que quiser. Era pra acabar naquela noite, naquele momento, pra acabar aquele dinheiro. Amanhã já era outro dia, e ia atrás de gastar mais. Porque era a maior facilidade pra ganhar. Ele bebia, mas o que levou ele mesmo pra bebida foi essa fase negra, que o pessoal não deixava nem ele tomar conta do trabalho dele. O interesse era desviar ele do negócio. O Chico tinha uma vida boa. Até a dentadura dele que era toda de ouro, no período desse pessoal roubaram. Ninguém nunca viu. É que nem o carro que ele ganhou, aquele do supermercado: ninguém sabe onde foi parar, ninguém sabe, ninguém viu.

Claudionor - Eu fui quem mais seguiu o Chico da Silva nisso, de não ter regra, não ter medida pra dinheiro. Eu me arrependo disso, mas eu realmente fui o que mais seguiu com ele, nas mulheres, na cachaça, rasgando dinheiro. Eu posso falar disso, tenho essa capacidade, porque eu vivi no mundo do Chico, como ninguém viveu esse momento com ele, bebendo nos cabarés até três da manhã, gastando sem pensar em nada.... Agora é que eu venho me organizando, porque também sempre trabalhei muito, nunca parei de trabalhar, e venho tentando me ajeitar.

Pra concluir, que expectativa vocês têm em relação a esse museu? Qual seria a importância de um museu assim, pra vocês?

Claudionor - Não vamos desmerecer o gênio que já tá falecido. Ele é um gênio e graças a ele ainda hoje vocês nos procuram. Ele criou um estilo único, que ninguém criou, foi o primeiro. Mas nós, discípulos, continuamos. Espero que esse museu fortaleça a solidificação da história do artista e que as pessoas voltem a procurar os verdadeiros artistas. Não desmerecendo o grande Chico da Silva. Quem tem quadro dele, ótimo. Agora, quem não tem, rapaz, compre um do Claudionor, do Garcia, Babá que são pessoas que também têm qualidade.

Garcia - Pra mim, estou esperando que tenha oportunidade de ter um local lá, para o povo conhecer os meus trabalhos. E também uma divulgação maior da obra do Chico, pra essa história da vida do Chico se prolongar mais através do museu. Nosso intuito, do Babá e do Claudionor, é manter em pé a memória do Chico.

Babá - A gente quer trabalhar dentro do museu pra resgatar esse nome. A história do Ceará, o nome do Chico, é uma marca, no Brasil e em outros países. Eu fui um dos que trabalhei pra marchand da Itália, dos EUA, de Portugal, e a gente esta procurando resgatar com o trabalho que era considerado autêntico. Se não era igual ao do Chico, eu pelo menos sempre procurei fazer o melhor possível, sem pressa de fazer alta produção, e sim trabalhos que valorizassem o nome do artista. E ele assinava, então era porque ele reconhecia. Eu continuo morando no Pirambu, onde o Chico é referência. A partir do museu e da nova avenida com o nome do Chico, além de um monumento que é possível ser feito lá, vai passar a ser muito mais.




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